RADIOCORREDOR: Roberto DaMatta e o rádio

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segunda-feira, 6 de maio de 2013

Roberto DaMatta e o rádio



Li e copiei este artigo da SulRadio do antropólogo Roberto DaMatta e reproduzo aqui, pois vale á pena ler, principalmente para quem é radialista ou simplesmente gosta de rádio.

Pertenço ao século do rádio, da revista semanal, do bonde e de uma praia onde o banho de mar era obrigatório. Íamos só de “calção de banho” e não comíamos nada. As meninas” levavam as “barracas”, que os mais bem apanhados “armavam” vendo de perto o espetáculo gracioso e “casual” de observar como elas despiam as suas “saídas de praia”, revelando corpos impecáveis. A praia parava para ver a chegada de certas moças, como a irmã do Nilton. Ou a mãe do Manuão, especialista — diziam — em freudianamente desvirginar os amigos do filho. A ponte entre a fantasia do sexo real e a irrealidade do romance ideal que invariavelmente terminava na confissão arrependida era preenchida pelo rádio, no canto de um Tony Bennett quando ele entoava “Stranger in Paradise” (“Estranho no Paraíso”). O paraíso representado pelo corpo desejado, mas ainda desconhecido, de uma mulher — esse outro do qual saímos e ao qual, numa hora encantada, voltamos inventando a nossa masculinidade. Lembro que a belíssima canção era uma versão americanizada das Danças Polovitisianas da ópera “Príncipe Igor”, de Alexandre Bodorin, popularizada num musical da Broadway chamado “Kismet”, que os mais grosseiros chamavam de “quis meter” numa falta de gosto que feria a sensibilidade dos mais cultos e puros de coração. Tudo era construído pelo rádio e foi pelo rádio lá de casa que testemunhei o poder do drama no choro aberto de mamãe e nas lágrimas contidas de meu pai ao ouvirem religiosamente a novela “O direito de nascer”. Deste mesmo rádio, ouvi o final da Segunda Guerra Mundial, o suicídio de Vargas e aprendi a imaginar campos de futebol e seus jogos maravilhosos pela voz de Oduvaldo Cozzi. Ao lado de suas pilhas chorei quando vencemos a Copa em 1958 e ouvi o programa humorístico “Balança mas não cai”, que os mais velhos censuravam com o eterno “este mundo está perdido”, no que eu, hoje mais velho que eles, reitero que sempre esteve e vai estar. O rádio era o meio e o mundo brasileiro (falado, ouvido e cantado), a mensagem. Naquele Brasil de “80% de analfabetos de pai e mãe”, conforme era banal dizer com um certo gosto e, às vezes, superioridade, quem não tinha rádio não estava no mundo. Jaz aqui na minha frente a caixinha retangular de um velho rádio Sharp de duas bandas e dez transistores que comprei em Marabá no dia 3 de outubro de 1961, quando — em meio ao meu trabalho de campo com os índios Gaviões — alienei-me dos acontecimentos políticos nacionais deflagrados pela renúncia de Jânio Quadros. O comerciante sírio-brasileiro que me vendeu o aparelho disse que o “bichinho pegava tudo”. As estruturas eletrônicas do rádio iam me tirar das tais “estruturas sociais” tocadas a Lévi-Strauss que eu perseguia com tanto ardor.

Voltamos para a aldeia com o rádio. Queríamos notícias, mas os nossos constrangidos anfitriões, pois fomos nós que nos intrometemos autoritariamente em suas vidas, queriam música. E música sertaneja, naquela época representada pelo baião. Uma noite, quando ouvíamos o noticiário político, o nosso mais dedicado instrutor, Aproronenum — conhecido entre os sertanejos pelo nobre apelido de Zarolho — pediu música. Girei o indicador para satisfazê-lo e em torno do rádio formou-se uma alegre plateia. Logo descobri que a novidade não era bem a música, mas o fato de ouvir e ver uma caixa cheia falante. Quando a música terminou, um índio que eu mal conhecia, um sujeito mal encarado, demandou exprimindo o desejo do grupo: — Manda ele cantar de novo! — Não posso — respondi atônito diante do radiozinho falante, mas surdo diante do meu problema. — Mas como não pode? Se ele fala, ele ouve! — disse o Gavião, que havia chegado na aldeia durante os dias que estive em Marabá. Recordando muito mal o que sabia de transmissores, tentei explicar o rádio. Esse rádio que havia permeado a minha vida e que eu descobria não saber sobre como ele funcionava. Vi então que sabia pouco do meu próprio mundo. Eu simplesmente, como Weber denunciou faz tempo no seu “A ciência como vocação”, era moderno. Nada sabia das entranhas dessas entidades mágicas que constituíam o meu mundo. Roberto DaMatta é antropólogo
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